Aos cegos que nos iluminam

Atenção, abrir em uma nova janela.

O cego da crônica "Uma flauta a caminho da luz" (clique aqui para ler), publicada por Keli Vasconcelos no Jornalirismo, abriu a minha velha mente cheia de afazeres e me levou a uma viagem no tempo, lembrando outro cego, um verdadeiro sábio. Por não saber tocar nenhum instrumento e muito menos cantar, pois era extremamente desentoado, agradecia aos que lhe faziam a gentileza de um trocado declamando poemas de Camões, Castro Alves, Augusto dos Anjos, Bandeira, Shakespeare e outros.

Fui lembrando meus contatos com aquele cego, de coisas bonitas vividas em sua companhia, da qual privava pelo menos duas vezes por semana durante a minha viagem de ônibus para o trabalho. Eu morava no Rio de Janeiro no bairro da Urca e trabalhava no centro da cidade, nas revistas do grupo Visão, bem perto da praça XV onde meu amigo tinha seu ponto de trabalho.

Sebastião era seu nome. Paraibano, vivia na Baixada Fluminense e, às terças e quintas, fazia tratamento de sua cegueira no Instituto Benjamin Constant, na Urca, pertinho de onde eu morava.

Como em todos os outros dias da semana, às 8h30, lá estava eu no ponto, esperando o ônibus. Logo em seguida, chegava Sebastião com seu indefectível "bom dia" e aí já engrenávamos uma conversa que durava por todo o trajeto do ônibus. Comentávamos o noticiário do Jornal do Brasil, baixávamos o pau nos governos federal, estadual e municipal, na igreja, na polícia, ninguém estava livre daquelas duas línguas viperinas. Também não poupávamos os dirigentes do futebol, um bando de incompetentes e daí por diante. Sebastião, invariavelmente, fazia comentários, descrevendo com perfeição milimétrica lances de gols anulados pelos juízes que só prejudicavam seu querido Flamengo e citava com detalhes os lugares por onde o ônibus passava. Até parecia que o cara enxergava. E enxergava sim, com os olhos do coração e com uma invejável memória de elefante.

Eu vivia testando sua sensibilidade e tentando pegar o cego no contrapé, mas não conseguia de forma nenhuma. O homem "enxergava" tudo. E eu pensava: se esse cara não fosse deficiente visual, seria imbatível em tudo o que fizesse. Certa vez, andando pela praça XV, parei para lhe dar algum e, querendo ludibriar sua grande perspicácia, mudei radicalmente meu tom de voz, mas ele logo descobriu que era eu que estava ali na sua frente e ainda brincou comigo:

- Menino, se tiver, bote algum aí no meu boné, mas não leve um troco maior, visse?

Numa manhã, no ponto do ônibus na Urca, fiquei quieto, fechei o jornal e, num silêncio sepulcral, não respondi ao seu "bom dia". Na segunda tentativa sem resposta, o danado do cego cobrou enfaticamente:

- O que é que há, meu amigo? Você está com raiva de alguma coisa, o que foi que eu fiz? Diga onde foi que errei e eu lhe peço desculpas, mas por favor não deixe de responder ao meu cumprimento.

Aí não aguentei. Falei da minha tentativa de surpreendê-lo e perguntei:

- Como é que você sabe que sou eu que estou aqui?

E foi aí que tomei mais uma lição do amigo.

- Deus me tirou a visão, mas me deu outras qualidades que só um cego é capaz de entender, aprenda. Você traz em sua mão o mesmo jornal de todo dia e jornal a gente identifica pelo cheiro da tinta e cada um deles tem um cheiro próprio. O do seu Jornal do Brasil é diferente do cheiro d'O Globo e até parece que o conteúdo editorial tem influência nisso... Eu também sinto e ouço seu chiado de fumante. Não é mesmo que vivo lhe falando para deixar de fumar? Enquanto você for o fumante inveterado que é, vai ter esse bafo de onça e essa respiração ofegante, que é notada mesmo quando procura se manter em silêncio.

Esse era o meu cego, meu amigo Sebastião Ferreira da Silva, que em tudo o que dizia mostrava que mais cego é aquele que finge que não vê. Foi esse mesmo cego que me ensinou que caridade é muito mais do que esmola. Um dia eu estava sem dinheiro e lhe pedi desculpas. Ele me livrou da tola preocupação assim:

- Diga um verso bem bonito, diga adeus e vá embora.

Ali aprendi que quem não tem verba pode e deve usar o verbo, que vale mais do que dinheiro.


Texto:Humberto Mendes

1 comentários:

Luciene Duarte Carvalho 13 de maio de 2010 às 12:06  

Vamos criar um novo "Ponto de Vista" sobre a Deficiência Visual!

Participe!

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