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O que você consegue enxergar?
Sabia que muitas pessoas olham sem necessariamente enxergar?
Nas escolas aprende-se a ler e escrever. Mas não se ensina a enxergar. Pode parecer um assunto bobo, mas não é. A grande maioria das pessoas pertence a um grupo chamado de analfabetos visuais.
As imagens que são vistas no nosso dia-a-dia podem e devem ser lidas. São textos visuais (muito diferentes dos textos verbais com os quais as pessoas estão acostumadas).
Imagens podem ser lidas. Mas a lógica delas é diferente. Não possuem a linearidade dos livros. Exige reflexão. É necessário esvaziar a mente do óbvio para poder ver o que está por detrás. Existe um mundo de significados escondido em cada imagem.
Quando olho para um livro, vejo o livro. Mas vejo também uma corrente de significados que estão enlaçados. Existem outros livros (conceitos, idéias, imagens), por detrás daquele livro. Vendo a ele não vejo somente ele. Cada objeto implica, puxa, amarra outras coisas consigo.
Já notou isso? Não?
Então, talvez seja oportuno refletir sobre o real significado da palavra cegueira.
texto: Adriano Gonçalves
A QUEM LÊ...
DEFICIENTE OU EFICIENTE?
Aliás, se esta lógica fosse válida o mundo deveria ser fabuloso, afinal existiria tanta perfeição espalhada por ele. Mas a teoria não condiz com a realidade. Se os deficientes são imperfeitos em função de algo que lhes falta, porque os outros que não se enquadram neste grupo não são perfeitos?
Talvez os dicionários sejam falhos. Ou quem sabe a lógica dos perfeitos seja deturpada. O fato é que a deficiência não desumaniza uma pessoa. Sua humanidade não é diminuída por uma qualidade. Um cego pensa, sente, quer, almeja, brinca, trabalha. O essencial não é tocar a luz com os olhos e permitir ao cérebro imprimir imagens. Não é isto que torna alguém homem ou mulher. Ou pelo menos isto não é o principal.
Ter um sentido limitado não significa demarcar até onde vai à dignidade. Um deficiente ainda é uma pessoa. Permanece indivíduo. E não raro precisa superar suas condições para poder sobreviver neste mundo contaminado pelas aparências. O deficiente precisa ser mais capaz do que os outros, precisa compensar suas limitações para ser percebido e valorizado. É isso o que a nossa sociedade exige dele.
Os deficientes não são imperfeitos. Muito pelo contrário. Não são poucos os casos em que eles se tornam pessoas muito eficientes. Competentes. Obtêm resultados mais significativos que muitas pessoas que se julgam perfeitas.
Perfeição. Imperfeição. Deficiência. Eficiência. Vale a pena meditar um pouco sobre este assunto. Afinal, as aparências enganam.
Texto: Adriano Gonçalves
A linguagem do preconceito e os significados da cegueira.
Além da influência dos fatores históricos, a forma como a mídia usa os significados da deficiência e mostra a figura do cego e das pessoas com deficiência, infiltra-se na vida das pessoas, contribuindo para a construção dos sentidos negativos e a manutenção do estigma, criando um círculo vicioso.
Com o objetivo de investigar os significados e referências à cegueira, Hull (2001) fez uma busca em um conceituado jornal britânico, The Guardian, cuja linha editorial se preocupa com justiça social e educação. Hull coletou 750 usos da palavra, classificando-os quanto ao significado literal e metafórico. O que mais chamou a sua atenção foi o uso metafórico, carregado de um significado extremamente negativo, que relacionava a cegueira à ignorância, à indiferença, à falta de sensibilidade, à falta de inteligência crítica e à violência. Os poucos usos metafóricos que não foram negativos se referiam ao amor e à justiça.
Hull comenta que, mesmo sendo a cultura britânica tão preocupada com o uso discriminatório das palavras, evitando aquelas que possam traduzir preconceito, o mesmo cuidado não foi verificado com relação à cegueira.
As imagens negativas, não somente na língua inglesa, vão se infiltrando na vida, atitudes e linguagem, colaborando para manter o estigma e a discriminação com relação à deficiência. Os discursos carregam e perpetuam essa posição negativa, vetando ao cego e às pessoas com outras deficiências o direito à participação plena na sociedade.
Também no cinema e na televisão, a figura da pessoa com deficiência está, geralmente, ligada a alguma figura monstruosa em filmes de suspense ou terror, ao humor grotesco, à amargura e desesperança em dramas. A deficiência é, assim, retratada com um teor melodramático e, segundo Longmore (2003), nos filmes de terror e suspense, onde fazem o papel de monstros, o texto que está implícito traduz o medo e a aversão pelas pessoas com deficiência.
Estes personagens, geralmente, aparecem com alguma deformidade física e, nas caracterizações de criminosos, também com uma deformidade da alma. Estas imagens refletem o que Goffman (1988) descreve como a essência do estigma: a pessoa que é estigmatizada é considerada, de alguma forma, como desumana e exemplifica o efeito multiplicador e devastador do preconceito.
Nesse caso, os vilões com deficiência destilam o seu ódio e o rancor pelo seu destino cruel e despejam sua ira naqueles que escaparam desta sina, numa retaliação à normalidade. O exposto acima reflete e reforça três preconceitos muito comuns: a deficiência como uma punição para o mal; as pessoas com deficiência são amargas devido ao seu destino; as pessoas com deficiência sentem inveja das pessoas normais e querem destruí-las. A história, entretanto, revela uma realidade diferente em que as pessoas é que foram, durante muito tempo e, de uma certa forma, até hoje, os algozes das pessoas com deficiência.
Além do vilão e do monstro, as pessoas com deficiência também começaram a aparecer na televisão e no cinema, principalmente nos anos 70 e 80, como pessoas desajustadas, que não se conformam com a deficiência imposta devido a algum acidente ou à guerra. A culpa de seus males está sempre neles próprios e não no ambiente restritivo da sociedade e na atitude preconceituosa das pessoas. Estes dramas ignoram ou distorcem as possibilidades de inclusão social e uso da moderna tecnologia assistiva, apresentando a morte como uma das únicas soluções possíveis para tanto sofrimento.
Ultimamente, a televisão, jornais e revistas, têm mostrado pessoas com deficiência que "superaram" sua deficiência, tornando-se profissionais bem sucedidos ou pessoas ativas em busca de seus objetivos pessoais e profissionais. Estas histórias são a antítese dos criminosos, dos monstros e das pessoas desajustadas mostradas nos filmes, mas ainda assim, traduzem uma visão distorcida da deficiência, considerando-a como um problema emocional de aceitação pessoal. O sucesso ou fracasso de uma pessoa com deficiência estaria ligado muito mais a fatores individuais, como coragem, determinação e equilíbrio emocional, deixando de levar em consideração o estigma, a discriminação, a limitação e falta de oportunidades impostos pela sociedade.
As questões discutidas, as quais incluem o conhecimento sobre a cegueira, as raízes históricas da deficiência e a linguagem do preconceito, me possibilitaram entender os sentidos que eu, professora e pesquisadora, atribuía e atribuo à cegueira, para entender a constituição do sujeito cego e com baixa visão e para analisar os sistemas de atividade, nos quais participam, dentre eles a sala de aula. Além disso, permitiram que eu pudesse entender melhor as possíveis barreiras para a inclusão escolar e social.
Artigo: Lívia Maria Villela de Mello Motta
Aos cegos que nos iluminam
O cego da crônica "Uma flauta a caminho da luz" (clique aqui para ler), publicada por Keli Vasconcelos no Jornalirismo, abriu a minha velha mente cheia de afazeres e me levou a uma viagem no tempo, lembrando outro cego, um verdadeiro sábio. Por não saber tocar nenhum instrumento e muito menos cantar, pois era extremamente desentoado, agradecia aos que lhe faziam a gentileza de um trocado declamando poemas de Camões, Castro Alves, Augusto dos Anjos, Bandeira, Shakespeare e outros.
Fui lembrando meus contatos com aquele cego, de coisas bonitas vividas em sua companhia, da qual privava pelo menos duas vezes por semana durante a minha viagem de ônibus para o trabalho. Eu morava no Rio de Janeiro no bairro da Urca e trabalhava no centro da cidade, nas revistas do grupo Visão, bem perto da praça XV onde meu amigo tinha seu ponto de trabalho.
Sebastião era seu nome. Paraibano, vivia na Baixada Fluminense e, às terças e quintas, fazia tratamento de sua cegueira no Instituto Benjamin Constant, na Urca, pertinho de onde eu morava.
Como em todos os outros dias da semana, às 8h30, lá estava eu no ponto, esperando o ônibus. Logo em seguida, chegava Sebastião com seu indefectível "bom dia" e aí já engrenávamos uma conversa que durava por todo o trajeto do ônibus. Comentávamos o noticiário do Jornal do Brasil, baixávamos o pau nos governos federal, estadual e municipal, na igreja, na polícia, ninguém estava livre daquelas duas línguas viperinas. Também não poupávamos os dirigentes do futebol, um bando de incompetentes e daí por diante. Sebastião, invariavelmente, fazia comentários, descrevendo com perfeição milimétrica lances de gols anulados pelos juízes que só prejudicavam seu querido Flamengo e citava com detalhes os lugares por onde o ônibus passava. Até parecia que o cara enxergava. E enxergava sim, com os olhos do coração e com uma invejável memória de elefante.
Eu vivia testando sua sensibilidade e tentando pegar o cego no contrapé, mas não conseguia de forma nenhuma. O homem "enxergava" tudo. E eu pensava: se esse cara não fosse deficiente visual, seria imbatível em tudo o que fizesse. Certa vez, andando pela praça XV, parei para lhe dar algum e, querendo ludibriar sua grande perspicácia, mudei radicalmente meu tom de voz, mas ele logo descobriu que era eu que estava ali na sua frente e ainda brincou comigo:
- Menino, se tiver, bote algum aí no meu boné, mas não leve um troco maior, visse?
Numa manhã, no ponto do ônibus na Urca, fiquei quieto, fechei o jornal e, num silêncio sepulcral, não respondi ao seu "bom dia". Na segunda tentativa sem resposta, o danado do cego cobrou enfaticamente:
- O que é que há, meu amigo? Você está com raiva de alguma coisa, o que foi que eu fiz? Diga onde foi que errei e eu lhe peço desculpas, mas por favor não deixe de responder ao meu cumprimento.
Aí não aguentei. Falei da minha tentativa de surpreendê-lo e perguntei:
- Como é que você sabe que sou eu que estou aqui?
E foi aí que tomei mais uma lição do amigo.
- Deus me tirou a visão, mas me deu outras qualidades que só um cego é capaz de entender, aprenda. Você traz em sua mão o mesmo jornal de todo dia e jornal a gente identifica pelo cheiro da tinta e cada um deles tem um cheiro próprio. O do seu Jornal do Brasil é diferente do cheiro d'O Globo e até parece que o conteúdo editorial tem influência nisso... Eu também sinto e ouço seu chiado de fumante. Não é mesmo que vivo lhe falando para deixar de fumar? Enquanto você for o fumante inveterado que é, vai ter esse bafo de onça e essa respiração ofegante, que é notada mesmo quando procura se manter em silêncio.
Esse era o meu cego, meu amigo Sebastião Ferreira da Silva, que em tudo o que dizia mostrava que mais cego é aquele que finge que não vê. Foi esse mesmo cego que me ensinou que caridade é muito mais do que esmola. Um dia eu estava sem dinheiro e lhe pedi desculpas. Ele me livrou da tola preocupação assim:
- Diga um verso bem bonito, diga adeus e vá embora.
Ali aprendi que quem não tem verba pode e deve usar o verbo, que vale mais do que dinheiro.
Texto:Humberto Mendes